O preço da indecisão: liberdade, escolha e responsabilidade em Sartre, no I Ching, em Osho e além…
#OBSERVAÇÃO importante:
Dando continuidade à nossa reflexão sobre a Filosofia dos Dias Comuns (planos de ANO NOVO):
https://id-pc-blog.infodigit-pc.com.br/wp/2026/01/02/filosofia-dias-comuns-2026/
vamos explorar agora A FEITURA DE ESCOLHAS EM NOSSOS DIAS COMUNS — aquelas decisões aparentemente simples, mas que moldam silenciosamente o rumo da nossa vida cotidiana.
(Vini)
Muitas pessoas vivem como se adiar uma decisão fosse uma forma de neutralidade. Como se o tempo suspenso preservasse possibilidades e evitasse erros. No entanto, como observa Tomer Rozenberg em “The Price You’re Paying for Not Deciding”, a indecisão não é neutra: ela cobra um preço constante, silencioso e cumulativo. Não decidir é, na prática, decidir permanecer onde se está, pagando com energia mental, tempo vital e oportunidades perdidas.
👉 Texto original de Tomer Rozenberg:
https://tomer-rozenberg.com/2025/12/27/the-price-youre-paying-for-not-deciding/
Essa intuição contemporânea encontra eco profundo tanto na filosofia existencialista, quanto na sabedoria oriental clássica e em pensadores espirituais modernos.
Sartre: é impossível não escolher
Jean-Paul Sartre foi categórico ao afirmar que o ser humano está condenado à liberdade. Isso não significa que somos livres de condições, mas que somos inevitavelmente responsáveis por nossas escolhas. Mesmo quando nos recusamos a escolher, já escolhemos — escolhemos a omissão, o adiamento, o conformismo.
“O homem não é outra coisa senão aquilo que faz de si mesmo.”
— Jean-Paul Sartre
A indecisão prolongada, para Sartre, pode ser compreendida como uma forma de má-fé: o sujeito finge que não é autor de sua própria situação, quando na verdade está sustentando ativamente o estado em que se encontra.
Rozenberg: o custo psíquico de não decidir
Rozenberg chama atenção para um ponto essencial: a indecisão não mantém todas as portas abertas — ela tranca a pessoa dentro de um labirinto mental. Pensar indefinidamente sobre a mesma escolha consome energia, impede o comprometimento e cria uma falsa sensação de prudência.
O problema não é refletir. O problema é pensar sem avançar, repetir os mesmos argumentos sem transformação real.
I Ching – Hexagrama 57 (Xùn): o perigo da hesitação
No I Ching, o Hexagrama 57 — O Suave ou O Penetrante — trata do avanço gradual, da influência contínua, mas também adverte contra a indecisão persistente.
Na linha 1, aparece a imagem de ir e voltar, avançar e recuar, sem firmeza interior. O comentário tradicional indica que essa oscilação constante enfraquece a força vital e dissolve a clareza.
Em contraste, surge a figura do guerreiro:
ele pode avançar ou recuar — mas nunca sem decisão. Avançar decidido é força. Recuar decidido também é força. A fraqueza está apenas na vacilação.
Osho: esperar certeza total é pedir demais
O filósofo indiano Osho (Bhagwan Shree Rajneesh) acrescenta uma observação decisiva a esse debate. Segundo ele, muitas pessoas esperam atingir algo como 51% de certeza — mais razões a favor do que contra — para então decidir. Para Osho, isso é pedir demais da existência.
A vida raramente oferece esse grau de clareza matemática. Quem exige garantias internas completas acaba postergando indefinidamente aquilo que só se revela no movimento.
Ao mesmo tempo — e aqui Osho se afasta tanto da impulsividade quanto da paralisia — ele lembra que nem toda decisão deve ser apressada. Em certos momentos, não decidir imediatamente é saudável, pois permite acumular forças internas e externas, observar melhor o contexto e amadurecer a disposição interior para agir.
A diferença fundamental está entre:
- adiar para amadurecer, e
- adiar para evitar.
O primeiro fortalece a decisão futura; o segundo a dissolve.
Outros filósofos, a mesma advertência
Esse princípio atravessa tradições distintas:
- Kierkegaard via a indecisão como um desespero silencioso: o indivíduo evita o risco de existir plenamente.
- Spinoza afirmava que a liberdade consiste em compreender as causas que nos determinam; não decidir é continuar sendo governado por forças externas.
- Nietzsche alertava que quem não escolhe por si acaba vivendo segundo valores herdados, impostos ou nunca examinados.
Decidir não é garantir acerto
Nem Rozenberg, nem Sartre, nem o I Ching, nem Osho exigem decisões perfeitas. Exigem decisões assumidas. A maioria das escolhas humanas é revisável, ajustável, corrigível. O erro ensina. A paralisia apenas consome.
Decidir:
- silencia o ruído mental;
- permite engajamento real;
- transforma reflexão abstrata em experiência viva.
Conclusão: entre a pressa e a paralisia
A indecisão cobra juros altos. Ela rouba o presente enquanto promete um futuro que nunca chega. Mas a decisão madura não nasce da pressa — nasce da clareza suficiente para agir.
Como ensina Sartre, não escolher é escolher.
Como adverte o I Ching, hesitar indefinidamente dissolve a força.
Como lembra Osho, esperar certeza total é pedir demais.
E como mostra Rozenberg, ficar parado também custa — e muito.

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Reflexão lúcida e necessária. Decidir não é buscar certeza absoluta, mas assumir o movimento e a responsabilidade pelo próprio caminho.
Me lembrou esse texto nosso e suas falas Tiara querida ao dizer de Shakespeare que certo dia nos alertou: “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.” Esse moço, o William Shakespeare em seus escritos, em suas peças teatrais deixou muita sabedoria de como melhor viver, mas, infelizmente hoje nós não lemos mais a estes grandes da literatura mundial e nacional, como um Machado de Assis, e como Clarice Lispector entre outros tão igualmente bons!
Osho (antes se chamava Bagwan Sheere Rajneesh) dizia outra coisa muito bacana sobre o ERRAR… Ele dizia… “Erre, erre todos os erros do mundo, é um direito sagrado de todos nós, mas, nunca repita ao mesmo erro duas vezes!”
Abraços querida Titi, e muito grato por vir por aqui! Continue vindo! (rsrsrs) Será sempre um prazer!