Estamos entrando, NÓS DA AMÉRICA LATINA em guerra com os EUA por tabela?! O que nos diz o presente e passado da história sobre?!
A pergunta não é de um roteiro de ficção distópica. É uma análise fria que vem ganhando corpo nos círculos especializados. Matthew Hoh, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, soa o alarme em uma entrevista recente: um caminho direto para a guerra na Venezuela está sendo traçado, com a União Europeia potencialmente sendo arrastada para um confronto com a Rússia. Mas, ao ouvir isso, um latino-americano atento não sente apenas um calafrio pelo futuro. Sente um déjà vu histórico. Será que estamos, mais uma vez, prestes a ser o tabuleiro de um jogo de xadrez geopolítico onde as peças principais são outras? A história, infelizmente, tem uma resposta incômoda.
A Crise na Venezuela: Mais do que uma Tragédia Local, um Ponto de Ignição Global
Matthew Hoh não é um conspirador marginal. Sua experiência dentro da máquina estatal norte-americana dá peso a sua advertência. Ele descreve um cenário onde a crise venezuelana deixa de ser um problema regional humanitário e político para se tornar o epicentro de um conflito por procuração (proxy war). Neste tipo de guerra, potências rivais (neste caso, EUA e seus aliados de um lado, Rússia e possivelmente China do outro) travam seus embates indiretamente, apoiando lados opostos em um país terceiro. A Venezuela, com suas vastas reservas de petróleo e seu alinhamento com Moscou, é o candidato perfeito.
O alerta de Hoh é sobre a escalada. Sanções que estrangulam uma economia, retórica que demoniza um governo, apoio a grupos opositores e exercícios militares nas proximidades são os capítulos conhecidos de um manual que muitas vezes termina em intervenção aberta. A grande questão que ele levanta é: até que ponto os EUA e a Europa estão dispostos a ir para “retirar” a Rússia do seu quintal estratégico? (Leia aqui uma análise recente do Carnegie Endowment sobre a estratégia dos EUA na região).
Um Padrão Que Se Repete: O Livro de Jogos do Século Passado
Para entender por que a análise de Hoh ressoa tão profundamente na América Latina, é preciso folhear o álbum de família das relações interamericanas. O presente não se repete, mas rima de forma assustadora com o passado.
A visão dos EUA sobre a América Latina como seu “quintal” (backyard), uma esfera de influência exclusiva, está codificada desde 1823 na Doutrina Monroe (“América para os americanos”). No século XX, essa doutrina foi operacionalizada de forma brutal sempre que um governo na região ousou seguir um caminho independente, especialmente se cheirava a socialismo:
- Guatemala (1954): A CIA orquestra um golpe contra o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, por suas reformas agrárias.
- Cuba (décadas de embargo e tentativas de desestabilização): A tentativa fracassada de invasão na Baía dos Porcos e o embargo econômico mais longo da história são respostas à revolução de 1959.
- Chile (1973): O caso mais paradigmático. Documentos históricos do próprio Departamento de Estado dos EUA detalham como o governo Nixon “fez a economia gritar” e apoiou ativamente as condições para o golpe militar que derrubou Salvador Allende, instalando a ditadura de Augusto Pinochet.
- Nicarágua (décadas de 1980): Apoio aos Contras, uma força rebelde, para combater o governo sandinista, em uma guerra civil que custou dezenas de milhares de vidas.
Nestes e em dezenas de outros casos, a justificativa era sempre a mesma: segurança nacional, combate ao comunismo, defesa da democracia. As ferramentas eram as mesmas: pressão econômica, operações secretas e apoio a forças locais opositoras. O resultado? Instabilidade crônica, derramamento de sangue latino-americano e a consolidação de um profundo sentimento de desconfiança em relação à potência do Norte. Este “manual de intervenção” é o pano de fundo que torna a análise sobre a Venezuela tão plausível e aterrorizante.
Nós, da América Latina: Alvos ou Protagonistas?
Aqui chegamos ao cerne da questão provocada pelo título. Se uma nova guerra por procuração se instalar na Venezuela (ou em qualquer outro país da região), quem realmente está em guerra? Os EUA, defendendo sua hegemonia? A Rússia, expandindo sua influência? Ou somos nós, latino-americanos, que novamente teremos nosso território devastado, nossa população deslocada e nosso futuro hipotecado por um conflito cujas causas últimas nos são externas?
A história nos diz que, nestes cenários, a América Latina foi principalmente o campo de batalha, não um dos generais. Nossa soberania foi repetidamente tratada como moeda de troca. Hoje, no entanto, o contexto mudou. A região não é mais o monólito da Guerra Fria. Existem governos alinhados com Washington, outros com Pequim e Moscou, e uma vasta população civil cada vez mais conectada e consciente.
A pergunta que fica, portanto, é também um chamado: Temos agência histórica? Podemos construir um bloco de mediação e resistência que force uma solução diplomática e evite que sejamos, mais uma vez, “entrados em guerra por tabela”? A busca por uma segunda e verdadeira independência—não apenas formal, mas de política externa—é um debate urgente, como apontam análises que repensam o relacionamento com os EUA.
Conclusão: O Alarme Soou. A Reflexão é Obrigatória.
O vídeo de Matthew Hoh não é uma profecia, mas um sinal de alerta de alto nível. Ele conecta os pontos entre a política atual e um passado que nunca foi superado. Ignorar esse aviso é acreditar que a história é linha reta de progresso, e não um ciclo com tramas recorrentes.
Não se trata de promover teorias anti-americanas simplistas, mas de reconhecer padrões de poder. É sobre entender que, quando elefantes brigam, a grama (que somos nós) é quem é pisoteada. A tarefa agora, para todos nós—cidadãos, jornalistas, diplomatas—é usar esse alarme não só para temer o futuro, mas para exigir e construir um futuro diferente. Um onde a América Latina não seja o tabuleiro, mas sim um dos jogadores que define as regras do jogo.
E você, acredita que estamos repetindo os erros do passado? A história está mesmo se preparando para dar mais uma volta cíclica em nosso continente, ou temos a força para escrever um capítulo novo? Comente e compartilhe esta reflexão.